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Da Redação
De um lado, a relatividade geral, que descreve planetas, galáxias e o próprio tecido do espaço-tempo. Do outro, a mecânica quântica, que governa partículas tão pequenas que a ideia de posição perde o sentido. As duas teorias funcionam com precisão espantosa, cada uma no seu território. O problema é que elas não conversam entre si. Unificá-las é o que os físicos chamam de Teoria de Tudo, tema da palestra que encerrou a programação do Palco Conhecimento da 35ª Mercopar nesta sexta-feira (23).
A missão ficou a cargo de Sérgio Sacani, geofísico formado pela USP, com mestrado em Engenharia de Petróleo e doutorado em Geociências pela Unicamp. São mais de 20 anos em grandes empresas de petróleo ao redor do mundo – e uma segunda carreira, paralela, dedicada a explicar o cosmos para milhões de pessoas. Sacani mantém o que é descrito como o maior canal do mundo dedicado à divulgação de astronomia e exploração espacial, com 2,1 milhões de inscritos no YouTube e 2,1 milhões de seguidores no Instagram.
Com seu conhecido magnetismo, revisitou a história da inteligência artificial e resgatou os principais cientistas que contribuíram para esse campo, como Alan Turing, Claude Shannon, Marvin Minsky e outros.
“Matemática e computação não possuem prêmio Nobel, por isso essas áreas criaram reconhecimentos que homenageiam esses pesquisadores. E quem aqui utiliza uma famosa IA generativa com o primeiro nome do cientista? A escolha não foi à toa”, brincou o palestrante para uma plateia lotada.
“A IA não é inteligente”
O tom mudou quando o assunto passou dos pioneiros para o presente. “A IA não é inteligente. Inteligência é um negócio orgânico. E artificial também não é, porque tem que ter um ser humano programando ela ali. Se você não coloca o prompt, se você não faz o código, a IA não funciona”, explicou Sacani.
A explicação veio com humor: “Só que é um nome marqueteiro que é bom demais. Vocês sabem qual seria o nome da inteligência artificial se não fosse esse? Estatística multivariada. Alguém iria usar um negócio que começa chamando estatística? Você já fica com ranço só de ler o nome. Inteligência artificial é um nome sensacional”.
O geofísico aproveitou boa parte da fala para desarmar o imaginário apocalíptico que cerca o tema. “Muita gente fala que a IA que a gente está mexendo hoje seria uma Skynet, que é o quê? A IA toma conta de tudo, aprende por ela mesma, programa por ela mesma, e o que eu vou fazer com o ser humano? Matar. Não vai acontecer isso, pessoal, fiquem tranquilos”, afirmou.
O conceito que ele usou para explicar o debate é a singularidade – o ponto hipotético em que a máquina não precisaria mais do ser humano. Para sustentar a tese, recorreu a um exemplo da cultura pop: “O Stan Lee bolou toda uma narrativa para o Homem-Aranha. O cara fez uma trama muito maneira. A IA não vai fazer isso sozinha. O computador não tem vontade”, ponderou.
O risco real, segundo ele, está em outro lugar. E não é tecnológico, é humano: “O que pode acontecer é a inteligência artificial na mão de determinados seres humanos. Aí isso vai ter um poder muito grande. Não é que a inteligência artificial fez o vírus sozinha: alguém foi lá e programou ela para fazer”.
O recado que interessa a quem tem empresa
Foi quando o assunto chegou aos agentes de IA que a palestra encontrou o público da feira. Sacani fez a pergunta “quem aqui já trabalha com agentes?” e a resposta foi o retrato de um mercado ainda no início.
A recomendação, nesse sentido, foi enfática: “Se você tem um pequeno, médio negócio, estude os agentes de IA e comece a trabalhar com as IAs agênticas. Todas elas hoje têm como você criar os seus agentes e colocá-los para trabalhar para você. Estudem isso e entrem nessa onda, porque é o que a gente está vivendo hoje”, sugeriu.
E o medo de usar a tecnologia no próprio negócio, disse, não se justifica: “Não tenham medo de usar no seu negócio, porque é muito importante e faz muita coisa mesmo hoje”.
Em uma programação que tratou de gêmeos digitais, gigantes da indústria, malha ferroviária do sul do país e segurança energética, entre outros assuntos, a palestra de encerramento propôs o movimento inverso: sair da aplicação imediata e olhar para a fronteira do conhecimento.

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