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Da Redação
O Rio Grande do Sul tem a energia que a indústria do futuro precisa. Falta transformá-la em competitividade. O diagnóstico é do painel “A indústria no futuro do RS: Segurança energética e tecnologias para a competitividade”, apresentado na 35ª Mercopar, que reuniu especialistas no tema nesta quinta-feira (22). Com mediação de Marjorie Kauffmann, diretora-superintendente do Sebrae RS, o debate reuniu ainda Douglas Becker, gerente-executivo Comercial da Sulgás, Caroline Bücker, diretora de inteligência e estratégia da Invest RS, e Osmar de Souza, gerente regional de vendas da Siemens, para conectar três dimensões que raramente sobem ao mesmo palco: infraestrutura energética, atração de investimentos e tecnologia de chão de fábrica. A Mercopar é a maior feira de inovação industrial da América Latina e segue até esta sexta-feira (23/10) no Centro de Feiras e Eventos Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS)>
E o consenso foi de que o Estado possui matriz 85% renovável, resiliência comprovada na crise climática de 2024 e uma carteira de R$ 40 bilhões em projetos de gás, biometano, eólicas e hidrogênio verde. O gargalo, conforme os painelistas, encontra-se em outro lugar: na articulação entre indústria, governo e agentes financeiros, bem como na decisão de compra do mercado.
Com o título “A Indústria no Futuro do RS: Segurança Energética e Tecnologias para a Competitividade”, Marjorie abriu a conversa situando o tema para além da conformidade ambiental.
“O nosso objetivo é conversar sobre um tema que mescla questões que são fundamentais. Eu diria não apenas para que a gente cumpra regras, para que possamos atingir mercados, mas fundamentais para a subsistência, para a permanência das indústrias e dos seres humanos nesse ambiente que cada vez mais pede eficiência, com bom uso de recursos naturais”, introduziu a diretora-superintendente do Sebrae RS e mediadora.
Ela também usou a própria Mercopar como demonstração prática: os 24 geradores que mantêm a feira em operação consumiram 60 mil litros de combustível e, pela primeira vez, rodaram integralmente com biodiesel produzido a partir de resíduos vegetais e animais.
“Aproveitamos a maior feira de inovação industrial da América Latina para mostrar algo que é daqui e que precisa quebrar tabus, provando que é possível diversificar essa fonte energética e implementar no que já existe”, comemorou, ao mencionar o biocombustível da Be8, parceira desta edição.
Enquanto o sistema elétrico brasileiro registra, em média, cerca de 10 horas anuais de interrupção por cliente, o gás natural distribuído por rede canalizada acumula 17 segundos no mesmo período. Os dados são da Sulgás. Nesse contexto, o gerente executivo comercial da companhia relembrou ainda a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.
“Ficamos submetidos a uma crise climática sem precedentes e ainda assim conseguimos manter o fornecimento de gás natural sem interrupção. Continuamos o atendimento de hospitais, de hotéis que abrigavam desabrigados, e fomos insumo para geração de energia elétrica”, relatou.
O argumento é de desenho de sistema, não de sorte. “Se eu vou iniciar uma atividade industrial hoje, não consigo mais imaginar o fornecimento de água ou energia elétrica através de caminhões-pipa com estocagem intermitente. Quando pensamos no gás, temos essa mesma realidade de transporte canalizado, o que traz muita resiliência”, explicou Becker.
Sobre o biometano, ele usou uma imagem simples para derrubar resistências: é o “irmão gêmeo” do gás natural, pois “do ponto de vista do consumidor, a diferença é imperceptível”. Criado a partir de resíduos industriais, produção agrícola, pecuária e aterros, ele promove sequestro de carbono. Para ligar quem produz no interior a quem consome nos polos industriais, a Sulgás desenvolveu o Biohub, mecanismo que permite aos produtores injetar a sua produção na rede canalizada, equilibrando excedentes e escassez. Hoje, 15% do gás natural veicular movimentado pela companhia já atende frotas pesadas.
R$ 40 bilhões à espera de comprador
Segundo a diretora de inteligência e estratégia da Invest RS, o Rio Grande do Sul tem uma matriz energética 85% renovável e baixo risco de curtailment – o desperdício de energia gerada que não consegue ser escoada. “Ali a gente começou a enxergar o Rio Grande do Sul com o valor que ele tem”, disse Caroline, referindo-se à plataforma de dados do Estado.
A credibilidade dessa base atraiu movimentos relevantes, como os R$ 10 bilhões anunciados pela Casa dos Ventos. E, a partir dos projetos mapeados pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura, a Invest RS lançou na COP de Belém uma carteira de R$ 40 bilhões em oportunidades, incluindo gás, biocombustíveis, biometano, eólica onshore e offshore e hidrogênio verde. Dessa forma, abriram-se canais diretos com o BNDES e com o Banco Europeu de Investimento.
O diagnóstico da diretora de inteligência e estratégia da Invest RS, porém, desloca o problema do recurso para a decisão. “O caminho agora é uma mudança de mindset: a infraestrutura e a viabilidade já existem, agora precisamos fazer o mercado comprar e os empreendedores enxergarem esse caminho de futuro sem volta. Meu sonho é ter biohubs mapeados pelo Rio Grande do Sul inteiro”, compartilhou.
O gerente regional de vendas da Siemens, por sua vez, abordou a camada que traduz infraestrutura em decisão de fábrica. A sua crítica inicial foi à cultura industrial que prioriza o resultado final sem comprovar o caminho: “A mentalidade muitas vezes foca no resultado final sem ter a comprovação e a efetividade dos dados”, analisou.
A tecnologia, defendeu Souza, resolve isso em três frentes. A primeira é a simulação: com dados digitais e gêmeos digitais, é possível comparar se compensa usar a fonte de energia A ou B antes de investir. A segunda é a disponibilidade: manutenção preditiva assertiva e acesso remoto para restabelecer fornecimento, solução que também ataca a escassez de mão de obra qualificada no interior.
A terceira, para o especialista, é a mais comercial. “A tecnologia permite tangibilizar a pegada de carbono do produto final, quantificando e garantindo que um caminhão ou automóvel seja produzido de forma ‘40% mais verde’ em toda a cadeia. Isso dá uma competitividade enorme frente aos concorrentes”, explicou. “A digitalização permite começar rápido, ajustar erros rapidamente e escalar soluções com proteção do investimento”, completou Souza.
O que falta, afinal
Na rodada de considerações finais, Marjorie provocou cada painelista com a mesma pergunta: o que falta para virar essa página? A própria diretora-superintendente do Sebrae RS apontou um incômodo prático: os inventários de emissões ainda são feitos de forma “analógica, artesanal e custosa em tempo”.
Já Caroline respondeu pela visibilidade e pela escala. “Precisamos dar mais visibilidade ao que temos e mudar o mindset, fortalecendo a autoestima do estado e acreditando nas boas notícias. Além disso, é preciso viabilizar volume para o preço diminuir”, apontou. E cobrou, ainda, horizonte: “As decisões das empresas precisam olhar para o planejamento estratégico de longo prazo, de 30 a 50 anos, e entender que não dá para abrir mão da diversificação energética”.
Becker, por sua vez, resumiu em um termo. “Sou muito otimista, acho que o movimento já está ocorrendo. A palavra que deixo aqui é articulação. O trabalho de juntar todo esse ecossistema – indústria, governo, concessionárias e agentes financeiros – é a chave para catalisar o processo e posicionar o Rio Grande do Sul como protagonista”, ponderou.
Souza deslocou a cobrança para o outro lado da mesa. “Para além do desafio tecnológico, o ponto central é como fomentamos o ecossistema para desafiar o status quo e sair da zona de conforto. O mercado e as indústrias precisam nos provocar mais com suas demandas para construirmos parcerias, tirar soluções do papel e escalar referências nacionais”, provocou.
Para finalizar, Marjorie fez um convite importante aos presentes: “Todos estão convocados. Fica a reflexão sobre desenhar a cadeia, identificar os atores e percorrer essa trilha de desenvolvimento soberano e próspero”.

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