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Feira do Empreendedor 2026 destaca negócios periféricos e prova que o CEP não define o potencial

Debate na Feira do Empreendedor 2026 destaca o impacto econômico e social de negócios liderados por mulheres nas periferias

atualizado em: 06/11/26

Da Redação

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Em um país onde mulheres negras donas de negócio faturam, em média, 59% menos que homens brancos, falar de empreendedorismo feminino na periferia não é pauta de diversidade: é pauta econômica. É com esse enquadramento que a Feira do Empreendedor 2026, promovida pelo Sebrae RS nesta quinta (5) e sexta-feira (6), no Instituto Caldeira, em Porto Alegre, coloca o tema no palco principal da programação.

A palestra “Elas movem a vila: Empreendedorismo feminino, renda e transformação em territórios periféricos” reuniu três perspectivas complementares: a de quem desenha políticas de fomento, a de quem construiu uma organização social do zero e a de quem articula projetos dentro da comunidade. Juntas, elas mostram que o empreendedorismo periférico não é uma versão menor do empreendedorismo tradicional, mas é um modelo próprio, com lógica colaborativa e impacto que transborda o faturamento.

O levantamento Empreendedorismo Feminino 2026, do Sebrae, com base na PNAD Contínua do IBGE, traça um retrato preciso da desigualdade. O rendimento médio mensal das donas de negócio revela uma hierarquia que combina gênero e raça: enquanto homens brancos ganham R$5.144 e as mulheres brancas R$3.874, o valor cai para R$2.868 e R$2.090 quando se trata de homens e mulheres negros, respectivamente.

A diferença entre o topo e a base dessa escala é de 2,4 vezes. O estudo também mostra que o faturamento das empreendedoras negras é 46% inferior ao das empreendedoras brancas, e que 57,9% delas são chefes de domicílio, o que significa que o negócio não é complemento de renda, é a renda.

Há ainda um dado de contexto que ajuda a entender a urgência do tema: a taxa de empreendedorismo entre mulheres é menos da metade da registrada entre homens, segundo o mesmo levantamento. Em outras palavras, o potencial existe, mas as condições de acesso não.

“A primeira barreira é se reconhecer como empreendedora”

Para a gestora de projetos de Inovação e Economias Portadoras de Futuro do Sebrae RS, Carol Niedderäuer, o obstáculo central não é técnico nem financeiro, é de identidade.

“O desafio é justamente esse empreendedor que está na periferia se reconhecer como empreendedor de fato. O exemplo de outras pessoas que tornaram isso possível é a chama que eles precisam para entender que também têm uma oportunidade, que são capazes, que o que fazem é um negócio e precisam buscar formação, capacitação. Não tratar isso como qualquer coisa, não é um ‘negocinho'”, pondera.

Carol lidera no Sebrae RS o projeto Economia de Vilas, que consolida resultados obtidos em cinco comunidades de Porto Alegre e expande o modelo para novos territórios. A meta é apoiar 80 potenciais empreendedores e pequenos negócios, com trilha formativa para 60 empreendedores e ampliação do acesso a feiras e eventos como a Feira do Empreendedor e outros.

O dado que mais chama atenção no projeto é a adesão espontânea das mulheres: dos 80 participantes, 78 são mulheres. Carol revela que o programa não foi desenhado para um público feminino: esta foi a demanda que se impôs.

“Muitas são mães solo e encontram no empreendedorismo um caminho para viabilizar financeiramente essa renda, e por conta da flexibilidade também. Empreender é uma forma de ter flexibilidade para lidar com os horários das crianças e com os outros entes da família de quem elas precisam dar conta”, analisa.

Da Restinga para o Brasil: a trajetória de Rozeli

Uma das convidadas da palestra é a personificação dessa tese. Rozeli da Silva chegou à Restinga aos 6 anos, em uma comunidade sem água encanada, sem esgoto, iluminada a lampião. Foi empregada doméstica por 11 anos antes de entrar no DMLU como gari, em 1987.

Em 1996, fundou com uma assistente social o Centro Renascer da Esperança. Começou com 40 crianças e voluntários que iam e vinham. Hoje, a organização atende quase 400 crianças na Restinga e emprega 78 pessoas com carteira assinada – todas da comunidade.

“Eu comecei numa casa de madeira e acreditei que aquilo ia dar certo. Então, não importa o local e nem o lugar; importa é o que tu quer fazer e o que tu quer pra tua vida”, afirma.

Em março deste ano, Rozeli recebeu o troféu “Inspiração” no prêmio Melhores do Ano 2026, no palco do Domingão com Huck, na TV Globo, reconhecimento que dividiu com a comunidade da Restinga e com o DMLU, que apoiou o projeto no início.

Mas a história dela com o empreendedorismo não para na atuação social. Aposentando-se do DMLU, Rozeli criou a Explosão de Sabor, vendendo bolo de pote feito em casa. Depois, passou a qualificar outras mulheres da comunidade para fazer o mesmo.

“Pensei que estava na hora de fazer as pessoas também serem empreendedoras, não só como empreendedora social, mas como empreendedora de empresa mesmo, para ter o ganho dela, através do MEI. Hoje, a gente tem lá quem costura, que faz gastronomia dentro de casa e muito mais”, conta.

Mário Quintana: 100 empreendedoras em um grupo

A segunda convidada, Gisa Marchi, chegou ao empreendedorismo pela porta da liderança comunitária – uma caminhada que começou muito antes do COMQ, na escuta das demandas do dia a dia do bairro. Foi nesse trabalho de fortalecimento do território que o empreendedorismo passou a fazer parte da sua atuação, à medida que as necessidades da comunidade foram se revelando. Hoje, vice-diretora do Centro de Oportunidades do Bairro Mário Quintana (COMQ) e conselheira do Orçamento Participativo de Porto Alegre pela Região Nordeste, ela conta que a virada veio de uma leitura geracional.

“A minha história começou primeiramente como liderança, vendo as demandas da comunidade, vendo a dificuldade que era. E depois entrou o empreendedorismo dentro da comunidade, que foi uma busca em que quem teve essa visão maior foi meu filho de 19 anos, que viu não só a necessidade das nossas demandas do dia a dia, como água e esgoto, mas viu a necessidade de conseguir patrocínio e cursos pra região que ajudassem as mulheres empreendedoras. Muitas são mães solo que sustentam a própria família”, relata.

O COMQ, explica ela, não nasceu de uma iniciativa isolada: foi uma construção conjunta, que uniu a sua vivência de anos na comunidade à visão do filho de buscar novas oportunidades para o bairro.

A diversidade produtiva do território impressiona: resina, pano de prato, crochê, comida, bolos, tortas, marmitas, cerimonial. E a articulação com o Sebrae RS já rende números concretos: na semana da feira, o grupo da Mário Quintana fechou 100 empreendedoras matriculadas, resultado de um trabalho contínuo de mobilização e de aproximação dessas mulheres com oportunidades de formação, geração de renda e desenvolvimento.

“Hoje temos um ganho concreto. Muitas empreendedoras estão aqui no espaço Periferia Acontece, algo que jamais imaginavam. Ver essas mulheres ocupando espaços que antes pareciam tão distantes da nossa realidade é muito significativo para mim. Conseguir fazer chegar essas oportunidades na comunidade era o meu objetivo”, comemora.

Periferia Acontece: cinco comunidades como expositoras

A palestra é uma das frentes. A outra é o espaço Periferia Acontece, que leva empreendedores de cinco comunidades de Porto Alegre para expor na feira, não como vitrine simbólica, mas como negócio real em busca de clientes.

E a convivência já produziu o que nenhum edital produziria: uma colaboração espontânea entre duas expositoras que não se conheciam. Uma fazia chinelos, a outra, roupas. Hoje, o chinelo de uma está exposto junto com a roupa da outra.

“É muito lindo de ver essas mulheres reunidas, porque elas enxergam força uma na outra e sabem que, juntas, vão chegar mais longe. Não é uma concorrência; elas se unem realmente”, explica.

Para Carol, esse é o ponto que diferencia o empreendedorismo social do empreendedorismo convencional:

“Quando a gente fala de empreendedorismo social, vai além só de faturar: ele precisa gerar impacto nas pessoas e no ambiente em que esse negócio está inserido. Então, a gente acaba proporcionando não só para aquele empreendedor que está à frente do negócio, mas para o território e para outras pessoas que vão enxergar nesse empreendedor um exemplo. Elas acabam sendo uma luz que vai iluminando o caminho”, analisa.

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