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Retratos de Brasis, por Ronaldo Fraga

atualizado em: 10/09/19

Da Redação

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Retratos de Brasis, por Ronaldo Fraga

Ronaldo Fraga esteve em Ijuí na sexta-feira para participar do Seminário da Moda, realizado pelo Sebrae RS, no campus da Unijuí. (Foto: Gabriela Goi)

Ronaldo Fraga esteve em Ijuí na sexta-feira para participar do Seminário da Moda, realizado pelo Sebrae RS, no campus da Unijuí. Com atividades ao longo de toda a tarde e o começo da noite que discutiram moda no mundo digital, varejo, engajamento de clientes, estratégias de visual e merchandising, o evento encerrou o Campus Fashion Week 2019. Antes da palestra de encerramento, o estilista conversou com exclusividade com o Sebrae RS. No bate-papo, ele contou sobre a importância de discutir a moda longe dos grandes centros, a aculturação do design, a relação da moda com a cultura, arquitetura, arte e política, a dissociação das indústrias da moda e da roupa, a marca própria, o mercado de trabalho no setor e seu processo criativo. No palco, o estilista contou três histórias completamente distintas, inspiradoras de coleções que suscitaram debates sociais, ambientais e políticos no mundo todo. Ao levar às passarelas casos como os das bordadeiras de Mariana, de mulheres transexuais de Porto Alegre e das escamadoras de peixes da praia da Penha, em João Pessoa, ele demonstra a razão de a moda ser essencial para discussões relevantes e por que, ao dar visibilidade ao genuíno, é considerado sinônimo de Brasil por onde passa.  Confira a entrevista:

Sebrae RS – Como você vê essa iniciativa do Sebrae RS em trazer para a região Noroeste do Rio Grande do Sul, afastada dos grandes centros, um evento deste porte, com a presença de grandes nomes da Moda?

Ronaldo Fraga – Eu adoro isso. É um novo tempo. Antigamente, o estilista ia a um polo de confecções já vigoroso. E, aqui, a região é um terreno fértil para que venha a ter um vigor no setor. A moda, hoje, fala de muitas coisas. É um vetor diverso que desperta a atenção de tanta gente, principalmente de vetores totalmente diferentes. O sucesso do evento, com a casa cheia, demonstra isso. O novo momento faz parte de uma aculturação do design e da moda, que é muito importante. O Sebrae está de parabéns pela iniciativa. Esse é o caminho.

 Você acredita que essa aculturação poderia ser imaginada há algumas décadas ou ela se dá muito em decorrência do acesso mais fácil à informação que se tem hoje?

Eu acredito que a democratização da informação auxilia. O desfile acontece e, imediatamente, está nas casas e em todos os cantos. Há algum tempo, custava a chegar, as pessoas não conheciam os estilistas. Hoje, elas acompanham. Muitos que estão aqui na cidade me mandaram mensagem no “Direct” (serviço de bate-papo online da rede social Instagram) dizendo “te acompanho no Instagram, você está na minha cidade, vou comparecer para te ouvir”. Outro fator que colabora é que nós tínhamos um setor que sofria muito preconceito e acabava falando para si mesmo. É importante que a moda seja uma novidade. É importante um evento desses ser em um campus, pois traz uma outra atmosfera para o lugar. Com a diversidade dos palestrantes, você mostra para o espectador o quão vasto é esse vetor.

Você crê que trazer este evento a uma cidade afastada das capitais ajuda a fomentar as micropolíticas nas quais acredita?

Claro! Eu costumo dizer que o melhor que meu ofício me proporcionou foi ir a locais que, por vias normais, eu não iria. Conhecer pessoas que, pelas vias normais, eu não conheceria. E foi assim que conheci o Brasil. Foi assim que segui os passos de Mário de Andrade, meu grande mentor intelectual. Se, na plateia, uma pessoa for estimulada e inspirada, ela vai provocar isso em outros. São essas micropolíticas que transformam e são eficientes. Na palestra, apresento três histórias em universos distintos que inspirararam coleções. Ou seja, vamos ver roupas, mas falar de tantas outras coisas. Eu quero que as pessoas percebam que o vetor moda estabelece diálogo com tantos outros vetores e que uma coisa é a indústria da moda e outra é a indústria da roupa.

Retratos de Brasis, por Ronaldo Fraga 2

“A minha crença é de que a moda é o reflexo do tempo no retrovisor”, diz Ronaldo Fraga.  (Foto: Gabriela Goi)

Ronaldo, o seu trabalho tem uma característica de valorização da cultura local, você é conhecido por colocar o DNA brasileiro no que concebe. Como você faz para que isso seja visto mundo afora, sendo o Brasil um país multicultural e de tantos regionalismos, por vezes até estereotipado?

Eu falo que, passada a euforia da globalização – nunca se falou tanto em globalização do que nos últimos 20 anos  –  , o genuíno passou a ser o novo luxo. Então, os mercados consumidores da Europa, até mesmo dos Estados Unidos, não querem a cópia desfocada daquilo que eles já têm, mas, sim, algo genuíno, de onde aquilo foi produzido. E é nesse ponto que a cultura cresce em importância. Antes, quando eu usava esse discurso na década de 1990, as pessoas achavam que eu estava falando de traje típico. Sempre uso os japoneses como exemplo. O Japão fala do futuro o tempo inteiro, mas sempre de mão dada com a tradição. A tradição e a cultura japonesa estão em qualquer coisa que eles façam. Tradição e cultura servem de alicerce para se fazer o novo.

Outra marca de seus trabalhos é o posicionamento político forte. Nesse momento social sensível, de muita violência e polaridade, trazer à tona e suscitar essas discussões, além do dom, também exige uma dose de coragem?  

Viver, por si só, já é um ato de coragem. A minha crença é de que a moda é o reflexo do tempo no retrovisor. Não posso negar o tempo no qual a gente está vivendo. O ato de vestir é um ato político. Quando eu falo que a moda é um ato político, não me refiro à política partidária. É algo mais amplo. Vivemos um momento sério, nossa frágil democracia está em risco, e isso é muito perigoso. É algo muito sério quando um país começa a demonizar a própria cultura e os próprios artistas. Tire do Brasil a sua música, sua cultura, seu cinema, sua arte popular, e o que sobra? Não sobra nada. Teríamos um país mudo.

De certa forma isso te dá mais coragem ainda, pode-se dizer?

Quando vi grande parte do meu setor apoiando cegamente ideias contrárias às de diversidade e sustentabilidade que os fizeram crescer, falei “não posso me calar”. Estamos, sim, em um país dividido e é a hora do debate, sem ódio.

Como se sente tendo contrariado grandes nomes e empresas do setor?

Sempre fui assim, desde o início da minha carreira. Eu era adolescente na primeira vez em que tive contato com a moda, no início da década de 1980, período de Ditadura Militar. Só lia literatura política. Em um livro do Zuenir Ventura, no qual ele fala que os intelectuais lutavam pela redemocratização do país, havia uma costureira – como ela gostava de ser chamada , que era Zuzu Angel. Ela, com a moda, com a roupa, foi a mais corajosa entre todos os personagens do livro. Era tudo muito escondido, mas ela enfrentava, ia aos quartéis, era seguida. Ela usou o ofício para denunciar ao mundo o que estava acontecendo no Brasil. Não há fato similar na história da moda do mundo do que esse feito de Zuzu Angel. Ela foi única. Isso me marcou e me inspira demais.

 Sua marca e seus traços são muito próprios. Quem lhe conhece identifica rapidamente quando um produto tem seu desenho. De que maneira você consegue manter isso tão forte e personalizado? Como é a relação com os licenciados?

Tenho um contrato muito bem amarrado, em que não só a primeira e a última palavra de aprovação dos produtos sou eu quem dá, como também preciso ir onde é realizada a produção para verificar em que condições. Isso nem é percebido. Só que, se eu faço isso, que é a essência e o que está por trás, dá para imaginar o que está à frente. Então, eu que crio tudo. Eu desenho tudo. Como eu tenho o domínio do desenho, fica bem característico, pois não terceirizo. 

O grande público, muitas vezes, tem a fantasia de que quem trabalha com arte e design, senta para trabalhar e vem uma “super inspiração”. Como é o seu processo criativo?

Eu não acredito muito na ideia de esperar o momento de inspiração. Tem que ser feito. E é uma nova história que se conta. Claro que tem dias em que a atmosfera e o entorno te ajudam mais. Mas a sala de criação, esperar o momento de inspiração, isso não existe. Então, eu penso muito. Às vezes, é dentro do avião. Às vezes, é dirigindo. Penso e desenho com a memória para, depois, passar para o papel. Mas eu não paro de desenhar e de criar por nenhum minuto.

 Que conselho você poderia dar para quem está começando na moda e quer empreender no setor?

Primeiro, é muito importante ter um olhar difuso. Entender todo o seu entorno. A quem está estudando na área, aconselho que trabalhe muito e seja empregado. Você precisa ser empregado. Não saia da faculdade com a ideia de já montar um negócio e ser dono. Tenha as experiências mais diversificadas possíveis, com infantil, masculino, vestidos de noiva. A era do estilista que respondia por tudo terminou. As pessoas, hoje, estão procurando estúdios de criação, onde estão empregando profissionais das áreas de moda, cinema, arquitetura. Quando falo do olhar difuso, é isso: o criador de moda tem que entender de arquitetura, de design gráfico, de design de produto, de arte. O mercado está pedindo esse profissional.

 Assim como a moda não se dissocia de arquitetura, design, da cultura, ela também não se dissocia da arte. De que forma se dá essa relação para você?

Eu falo que “a arte tem o poder de enxergar poesia em terreno árido”; a moda, às vezes. Nesse lugar é que a moda se encontra com a arte. Quando você olha para alguma coisa e tira dali um tema inesperado. Por exemplo, as coleções inspiradas em transfobia e no grupo de trabalho de bordadeiras de Mariana, após a tragédia. São temas espinhentos que a arte consegue trazer. A moda, às vezes. Quando as duas se encontram, aí todos ganham.

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