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Da Redação
Estoque, relacionamento com clientes e fornecedores, qualidade da produção, aquisição de insumos. São muitas as preocupações de um empreendedor, afinal ele tem que se certificar de que tudo está bem no seu negócio. Mas e a sua saúde mental? Esse tema pode facilmente ficar de lado. Mas a Feira do Empreendedor 2026, promovida pelo Sebrae RS, em Porto Alegre, defende que este é um aspecto importante também da empresa. Por isso, recebeu a psicóloga e consultora de estratégia de negócios Juliana Guterres no palco Sebrae Tá On. A especialista partiu de uma constatação simples e desconfortável.
“A gente é obcecado por metodologia, por sistema, por entender do nosso cliente. E a gente se esquece de entender de si mesmo. É quase uma obsessão pelos números, pelo nosso CNPJ, e o nosso CPF vai ficando um desmedido, à parte”, afirma.
Afinal, por trás de todo negócio existe uma pessoa, e o cansaço de quem empreende raramente é falta de força. De acordo com Juliana, tem a ver com circunstâncias, como a conta que não fecha, a sobrecarga, a cultura do “você pode tudo”. A palestrante tem uma formação deliberadamente não óbvia: psicóloga, com formação também em Gestão Comercial e Filosofia e MBAs em Psicanálise, Varejo e Cooperativismo. Passou 10 anos à frente de uma empresa familiar, com 20 colaboradores, até adoecer.
“Fiquei 10 anos batendo a linha no balcão com os funcionários, pagando salário e 13º, até que cansei. Eu tive burnout e aí precisei repensar, rever o que eu estava fazendo da vida. Fui para o outro lado: não quem atende mais o consumidor final, mas quem ajuda a pensar nos negócios, quem ajuda o empreendedor que está, como um dia eu estive, a pensar sobre a sua vida e a sua carreira”, conta.
Hoje, ela atua como consultora de estratégia, facilitadora de programas de empreendedorismo e palestrante, com foco na saúde mental de empresárias e empresários. Para desmontar o estigma, Juliana recorre a uma imagem que qualquer empreendedor entende.
“A saúde mental é intrínseca. Ela está com a gente mesmo que a gente não perceba ou ache que não tem. É como o ar: respiramos sem nos darmos conta até que o ar falha, até que o ar para. E aí, quando para, a gente se dá conta de que alguma coisa está acontecendo”, explica.
A partir dos quatro conceitos da Organização Mundial da Saúde, ela propõe uma metáfora em forma de árvore para comunicar a relação entre os negócios e a saúde mental do empreendedor. A raiz é a conexão com as pessoas; o tronco é a capacidade de funcionar, ou seja, ganhar dinheiro, pagar contas, aprender; as ferramentas são os recursos para lidar com o que acontece; e as flores são o desabrochar da empresa, que só vem depois.
“É cruel uma sociedade que cobra empenho da gente o tempo inteiro, dizendo que é preciso trabalhar enquanto eles dormem, sem antes termos as nossas raízes e o nosso tronco bem formados”, analisa.
Conforme Juliana, cerca de 70% dos empreendedores enfrentam alguma questão de saúde mental. Desses, aproximadamente 85% relatam ansiedade e 37%, ataques de pânico. A isso se soma o que ela chama de “glamourização da carreira empreendedora” – “que só mostra a foto do computador na praia e não mostra o choro de madrugada diante da planilha errada” – e a positividade tóxica do “foco, força e fé”, que joga toda a culpa no indivíduo.
“Nós vestimos muitos chapéus ao mesmo tempo: limpamos o banheiro, passamos o café, fazemos o fechamento do mês e definimos as metas. Quando a gente é muito bom no que faz, corre o risco de virar o próprio negócio, esquecendo o CPF e respondendo apenas pela razão social”, alerta.
Como mudar essa realidade então? A especialista sugere que a saúde mental não é pauta de bem-estar, mas sim de gestão.
“Por que você tomou uma decisão ruim, demitiu um funcionário pelo WhatsApp, perdeu um prazo ou tratou um cliente de forma ríspida? Não é porque você não sabe gerir, mas porque está exausto e sem ferramentas adequadas para lidar com a pressão. Cuidar da própria saúde é o ato de cuidar da peça principal que faz as outras peças e planilhas funcionarem”, argumenta.
Para ajudar os empreendedores a identificarem o seu limite, Juliana propôs quatro fatores de autoavaliação. Frequência, intensidade, duração e funcionamento. Por exemplo, uma noite mal dormida acontece; dormir mal todas as noites indica que algo está errado. Ou, ainda, sentir um frio na barriga antes de palestrar é normal; crises de choro, queda de cabelo e perda de apetite não são.
“O burnout tem 12 degraus, e os primeiros são marcados por tensão e aplauso: a sociedade aplaude quem trabalha sem parar, quem não dorme e quem pula o almoço para atender cliente. A pessoa tenta se provar, deixa necessidades básicas de lado e passa a viver em constante resistência até colapsar”, diz. “Não deixem para cuidar apenas no macro e esquecer o micro diário, senão você chega às férias apenas exausto e não descansa de verdade”, conclui.
A palestra foi parte da programação do segundo dia da Feira do Empreendedor 2026, realizada pelo Sebrae RS no Instituto Caldeira, em Porto Alegre.

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