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Da Redação
No início do século 20, a Quinta Avenida, em Nova York, mostrava um único automóvel perdido entre charretes. Dez anos depois, a cena estava invertida: uma única charrete entre os carros. Os fabricantes de charretes, lembrou Bruno Stefani, passaram esse tempo tentando criar cavalos 10% mais rápidos. A imagem resume o alerta que o ex-diretor global de inovação da AB InBev levou ao Palco Conhecimento da Mercopar nesta quinta-feira (22/10), na palestra “Como empresas tradicionais inovam”. A Mercopar é uma realização do Sebrae RS e do Sistema FIERGS e segue até esta sexta-feira (23/10) no Centro de Feiras e Eventos Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS).
Hoje consultor de construção de grandes negócios, Stefani defendeu que a inovação não é exclusividade do Vale do Silício, de Israel ou da China: ela também está ao alcance de negócios tradicionais, não importa o tamanho. Ele lembrou que, desde 2010, uma onda de transformação digital fez algumas empresas deixarem de representar um setor para se tornarem ecossistemas de plataformas. Os cases nacionais da Magalu, que já não cabe na definição de varejista, e a própria Ambev, uma cervejaria que também tem operações de banco, logística e energia, foram os exemplos citados.
O palestrante citou o caso da Caterpillar como um dos mais emblemáticos. Stefani usou o gráfico da ação da empresa como ponto de partida para contar sua estratégia: em vez de tentar vender dez vezes mais máquinas, a fabricante de máquinas pesadas passou a buscar crescimento em serviços, com a meta de dobrar a receita, de cerca de US$ 14 bilhões em 2016 para US$ 28 bilhões em 2026. O primeiro passo, segundo ele, foi reunir em uma única base os dados espalhados e desorganizados que vinham das máquinas, das revendas e dos clientes, e usá-los para criar serviços como gestão de frota e manutenção preditiva. A mesma lógica pode ser aplicada a qualquer pessoa que está em busca de escolher a melhor IA para uso profissional: antes de escolher entre Copilot, Gemini, ChatGPT ou Claude, a pergunta a ser feita deveria ser como organizar os dados para que a inteligência artificial seja a melhor para o seu negócio. “Dado é água: ele está abundante, mas, se a gente não tratar, não consegue consumir”, resumiu.
Stefani contou como o Zé Delivery, criado dentro da Ambev em 2015 e impulsionado pelo fechamento dos bares durante a pandemia em 2020, aproximou a indústria do consumidor final, ensinou a empresa a vender outros produtos além da cerveja e transformou vendedores em consultores de relacionamento. Ele também citou a chinesa Haier, que reorganizou a empresa em microempresas autônomas, cada uma responsável por um produto. O alerta que conecta os casos: “Concorrente não é quem vende o mesmo produto, e sim quem resolve o problema do cliente de uma maneira completamente diferente”, defendeu.
Para ilustrar a velocidade da mudança que estamos testemunhando, o palestrante apresentou uma comparação entre serviços de táxi, Uber e Waymo, na cidade americana de São Francisco: em dez anos, os táxis encolheram, o Uber cresceu e a Waymo, uma empresa de veículos autônomos guiados por IA que começou como protótipo em laboratório do Google, passou a ocupar espaço relevante nas corridas e tende a ganhar cada vez mais usuários.
Embora o ritmo geral de mudança seja acelerado, ele defende que estamos apenas no começo desta nova era. Citando o livro “Technological Revolutions and Financial Capital”, da pesquisadora anglo-venezuelana Carlota Pérez, Stefani lembrou que as revoluções tecnológicas anteriores, das ferrovias à internet, seguiram um mesmo ciclo de irrupção, euforia, crise, regulação e maturidade, comparando que a IA, se fosse um filme, “ainda estaria no momento do trailer”.
Entre a última charrete e o primeiro carro sem motorista, a palestra traçou um mesmo caminho: quem mantém o olhar no problema do cliente enxerga a estrada antes que ela se abra. “A maior parte das empresas, especialmente agora, precisa estar muito mais apaixonada pelo futuro do que orgulhosa do passado”, concluiu Stefani.

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