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Da Redação
Todos os anos, milhares de visitantes chegam à Fenadoce motivados por um dos maiores símbolos da gastronomia gaúcha: os doces tradicionais de Pelotas. Mais do que receitas centenárias, esses produtos carregam um reconhecimento que fortalece sua reputação, protege um modo de fazer transmitido entre gerações e impulsiona o desenvolvimento da região.
Desde 2011, os doces tradicionais de Pelotas contam com o selo de Indicação Geográfica (IG), reconhecimento concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a produtos cuja qualidade e reputação estão diretamente ligadas ao território onde são produzidos. Para além de uma certificação, a IG tornou-se uma ferramenta capaz de agregar valor aos empreendimentos, ampliar oportunidades de mercado, fortalecer a atividade turística e preservar um patrimônio cultural que faz parte da identidade da Zona Sul do Rio Grande do Sul.
Para o coordenador de projetos de Agronegócios do Sebrae RS, André Bordignon, a Indicação Geográfica representa uma estratégia de desenvolvimento territorial ao transformar a reputação construída por uma região em um diferencial competitivo. Ele explica que “a Indicação Geográfica transforma a reputação de um território em um ativo de valor. Ela protege produtos reconhecidos por sua qualidade e pela relação direta com sua origem, criando oportunidades que vão muito além da produção. Esse movimento fortalece toda a cadeia produtiva, impulsiona o comércio, estimula o turismo, gera empregos e favorece a permanência das famílias e dos empreendedores em seus territórios”.
Segundo Bordignon, o Brasil ainda vive um processo de amadurecimento em relação ao tema. Conta que um dos principais desafios é ampliar o conhecimento da população sobre o significado do selo e o impacto que ele gera para produtores, consumidores e regiões reconhecidas. “Quando o consumidor entende que aquele selo representa história, tradição, qualidade e origem, ele passa a reconhecer um valor que vai além do produto em si. Quanto maior esse conhecimento, maior também tende a ser a valorização das Indicações Geográficas e dos empreendimentos que fazem parte delas”.
Em Pelotas, a certificação também contribui para fortalecer o turismo. A analista e gestora de projetos do Sebrae RS, Jussara Argoud, diz que a tradição doceira consolidou-se como um dos principais elementos da identidade do município e segue despertando o interesse de visitantes de diferentes partes do país: “A Fenadoce foi fundamental para ampliar a visibilidade dos doces tradicionais de Pelotas. Ao longo dos anos, ela aproximou milhares de pessoas dessa história e despertou o interesse de conhecer a cidade, experimentar os doces e entender por que essa tradição é tão importante para a nossa cultura”.
Jussara destaca que, embora a Indicação Geográfica represente um importante reconhecimento para os produtores, ainda é necessário ampliar o conhecimento da própria
comunidade sobre o significado desse patrimônio. “Precisamos fazer com que as novas gerações conheçam essa tradição e compreendam seu valor histórico, cultural e econômico. Quando as pessoas entendem a importância desse legado, passam também a enxergar oportunidades de empreender, inovar e manter viva uma atividade que gera renda e desenvolvimento para toda a região”, destaca.
Ela lembra que o impacto da tradição doceira ultrapassa a produção dos doces e movimenta diversos segmentos da economia local. “Quem vem a Pelotas motivado pelos doces acaba conhecendo a cidade, visitando outros atrativos, consumindo em restaurantes, hospedando-se e levando consigo outros produtos da nossa região. É esse movimento que fortalece o turismo e amplia as oportunidades para os empreendedores locais”.
Na prática, esse reconhecimento faz diferença para quem preserva diariamente a tradição doceira. Presidente da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas, Simone Maciel Jara Bica, também proprietária da Dona Xica Doces, afirma que elaborar um doce certificado pela Indicação Geográfica significa assumir o compromisso de manter viva uma história construída ao longo de gerações. “Produzir os doces tradicionais de Pelotas é trabalhar com um produto especial, que carrega história, tradição e qualidade. A Indicação Geográfica reforça essa identidade e dá ao consumidor a segurança de que aquele doce preserva características que fazem parte da nossa cultura”.
De acordo com Simone, o reconhecimento também fortaleceu a imagem dos empreendimentos e abriu novas perspectivas para o setor: “A certificação valoriza o trabalho dos produtores e amplia nossa credibilidade. Ela abre portas, fortalece a confiança dos consumidores e reconhece todo o cuidado que existe por trás da produção dos doces”.
Atualmente, integram a Indicação Geográfica de Pelotas 14 doces tradicionais: quindim, panelinha de coco, ninho, olho de sogra, broinha, camafeu, trouxinha de amêndoas, papo de anjo, queijadinha, fatia de Braga, pastel Santa Clara, bem-casado, amanteigado e beijinho de coco. O próximo desafio, segundo Simone, é fazer com que essa tradição alcance novos mercados.
“Queremos que os doces de Pelotas cheguem cada vez mais longe, inclusive a outros estados e países. Ainda temos desafios logísticos, porque são produtos delicados e de curta validade, mas seguimos trabalhando para que essa tradição ultrapasse fronteiras sem perder sua essência”.
Ao proteger um modo de fazer que atravessa gerações, a Indicação Geográfica preserva muito mais do que receitas tradicionais. Ela fortalece empreendedores, movimenta a economia, impulsiona o turismo e transforma a identidade de um território em um ativo de desenvolvimento. Durante a Fenadoce, esse patrimônio ganha ainda mais visibilidade, reforçando que cada doce produzido em Pelotas carrega consigo não apenas ingredientes e técnicas, mas a história, a cultura e o trabalho de uma região inteira.

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